quinta-feira, 2 de abril de 2009

Mensagem do Dia Mundial do Teatro 2009

Dia Mundial do Teatro - 27 de Março, 2009
texto de Augusto Boal

Todas as sociedades humanas são espetaculares no seu cotidiano, e produzem espetáculos em momentos especiais. São espetaculares como forma de organização social, e produzem espetáculos como este que vocês vieram ver.Mesmo quando inconscientes, as relações humanas são estruturadas em forma teatral: o uso do espaço, a linguagem do corpo, a escolha das palavras e a modulação das vozes, o confronto de idéias e paixões, tudo que fazemos no palco fazemos sempre em nossas vidas: nós somos teatro!Não só casamentos e funerais são espetáculos, mas também os rituais cotidianos que, por sua familiaridade, não nos chegam à consciência. Não só pompas, mas também o café da manhã e os bons-dias, tímidos namoros e grandes conflitos passionais, uma sessão do Senado ou uma reunião diplomática - tudo é teatro.Uma das principais funções da nossa arte é tornar conscientes esses espetáculos da vida diária onde os atores são os próprios espectadores, o palco é a platéia e a platéia, palco. Somos todos artistas: fazendo teatro, aprendemos a ver aquilo que nos salta aos olhos, mas que somos incapazes de ver tão habituados estamos a olhar. O que nos é familiar torna-se invisível: fazer teatro, ao contrário, ilumina o palco da nossa vida cotidiana.Em Setembro do ano passado fomos surpreendidos por uma revelação teatral: nós, que pensávamos viver em um mundo seguro apesar das guerras, genocídios, hecatombes e torturas que aconteciam, sim, mas longe de nós em países distantes e selvagens, nós vivíamos seguros com nosso dinheiro guardado em um banco respeitável ou nas mãos de um honesto corretor da Bolsa - nós fomos informados de que esse dinheiro não existia, era virtual, feia ficção de alguns economistas que não eram ficção, nem eram seguros, nem respeitáveis. Tudo não passava de mau teatro com triste enredo, onde poucos ganhavam muito e muitos perdiam tudo. Políticos dos países ricos fecharam-se em reuniões secretas e de lá saíram com soluções mágicas. Nós, vítimas de suas decisões, continuamos espectadores sentados na última fila das galerias.Vinte anos atrás, eu dirigi Fedra de Racine, no Rio de Janeiro. O cenário era pobre; no chão, peles de vaca; em volta, bambus. Antes de começar o espetáculo, eu dizia aos meus atores: - "Agora acabou a ficção que fazemos no dia-a-dia. Quando cruzarem esses bambus, lá no palco, nenhum de vocês tem o direito de mentir. Teatro é a Verdade Escondida".Vendo o mundo além das aparências, vemos opressores e oprimidos em todas as sociedades, etnias, gêneros, classes e castas, vemos o mundo injusto e cruel. Temos a obrigação de inventar outro mundo porque sabemos que outro mundo é possível. Mas cabe a nós construí-lo com nossas mãos entrando em cena, no palco e na vida.Assistam ao espetáculo que vai começar; depois, em suas casas com seus amigos, façam suas peças vocês mesmos e vejam o que jamais puderam ver: aquilo que salta aos olhos. Teatro não pode ser apenas um evento - é forma de vida!Atores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a transforma!

3 comentários:

Claudia disse...

Querido Zé Adão,
Aprendi com minha mãe a amar o teatro, lugar em que o texto e a linguagem se transformam e nos dão uma dimensão do humano que é única. Também dela herdei a paixão pelos atores, atrizes, pelos artistas.
Tive sorte em ter crescido num ambiente repleto de arte e de criação.
Por isto e por muito mais eu estou muito feliz pela inauguração da Sala Professora Dionéia de Macedo Rüdiger - Espaço de Memória do Ator Gaúcho, a ser inaugurada na próxima 3ª feira, às 18h e 30m no 4ªandar da CCMQuintana. Eu e Guga gostaríamos muitíssimo de tua presença e mais ainda de tua participação neste espaço que homenageia os atores de nossa cidade. Abração!Claudia Rüdiger

Anderson Graciano disse...

Olá grande Zé Adão...
tive a honra de cooperar em um trabalho chamado "Um Pobre Homem" aqui mesmo em Porto Alegre/RS... acho que 2001...
Sabe me indicar onde consigo assisti-lo novamente?
Abraço
Anderson Graciano

Pedro Corbetta Ribeiro disse...

QUERIDO ZÉ, GRANDES PALAVRAS, BOA REFLEXÃO. UM GRANDE ABRAÇO PEDRO CORBETTA