quinta-feira, 2 de abril de 2009

RENATA SORRAH

Eu vim de uma família de classe média. Meu pai era judeu alemão; minha mãe, brasileira. Senti necessidade de romper um pouco com a família, me libertar de uma estrutura burguesa. Fui morar em Copacabana com Amir Haddad. Acho importante romper com coisas que te amarrem, que são caretas. Não é sair se drogando, ficar enlouquecido. É, sim, algo interior.

Eu era muito tímida. Amir Haddad me pediu para dar um passo. Eu quis morrer. É uma linha muito difícil de ser transposta.

Quando comecei a fazer teatro, meu pai perguntou se eu gostaria de ir para Londres estudar. Disse "não, meu lugar é aqui". Hoje eu já acho que você ganha experiência passando um ano fora. Não que seja essencial. Porque do que vocês vão precisar mesmo é daqui, da CAL.

Para mim, faltou uma escola. É um tempo precioso, que nunca mais volta na vida. Comecei no Tuca - Teatro Universitário Carioca -, com Amir Haddad. Antes eu cursava psicologia e não sabia que queria ser atriz. Não pensava nisto. No início, então, fomos fazer "A Casa de Bernarda Alba" e eu interpretava Angústias, que só tinha uma fala. Ao final, Amir disse para o menino que estava testando: "você tinha uma atriz em cena e não percebeu". Amir disse que eu era uma atriz. Neste dia, acordei de um jeito e fui dormir de outro completamente diferente. Nunca mais pensei em fazer outra coisa.

Depois, fui trabalhar numa loja de discos em Copacabana. Saí de casa porque achava que uma atriz não podia morar com os pais. Fui morar com Amir. Queria ser igual a Maria Gladys. Comecei a fazer alguns espetáculos, como "O Trágico Acidente que Destronou Tereza", de José Wilker, "Os Convalescentes", de José Vicente, e "Antígona", no Opinião. Sempre escolhi bem as peças que fiz. Buscava peças que poderiam tocar as pessoas.

Além de Amir Haddad, trabalhei com Ulysses Cruz e Jorge Lavelle, que me dirigiu em "A Gaivota". De Tchekhov, além de "A Gaivota", fiz "As Três Irmãs". Considero um dos grandes autores. Para mim, Tereza Rachel foi a atriz que melhor fez Arkádina. Se com Amir fazíamos muitos laboratórios, Lavelle já trazia a peça pronta.

Foi só em "A Gaivota" que resolvi meu problema de respiração. Se tivesse feito escola, não teria demorado tanto tempo. Naquela época, fui estudar com Glorinha Beutenmuller.

Foi uma época das mais felizes da minha vida. Um dia, estava indo para o ensaio na Sala Cecília Meirelles e tive a sensação de que repentinamente tinha entendido tudo - o nosso tamanho em relação ao universo. "A vida é muito simples", disse. Isto era Tchekhov exercendo influência. E costumo ter a sensação de que não sei viver direito porque me atrapalho afetivamente. Mas no palco parece que sei. Tchekhov escreve de maneira tão inspirada que o ator tende a se tornar uma pessoa melhor.

Se vou interpretar uma personagem de Tchekhov, sigo Stanislavski. Trabalhei com Celso Nunes, um diretor bastante próximo a Grotowski. Ele deve ter passado algo para mim, mas eu não estudei a fundo.

Em "As Três Irmãs" eu era a mais velha do elenco. Disse para a Bia Lessa que não iria fazer. E ela respondeu: "a Olga que eu quero é você".

De Shakespeare só montei "Noite de Reis", dirigido pelo Amir Haddad. Fiz ainda "Tango", "As Lágrimas Amargas de Petra von Kant", "Afinal, uma Mulher de Negócios" e "Os Veranistas", que abriu o Teatro dos Quatro. Levamos ótimos textos lá.

Eduardo Tolentino estava na Polônia e disse que pensou em mim ao assistir a uma peça. Pensei: "é uma mulher louca". Sempre interpretei mulheres fortes, pesadas, comprometidas. Mesmo quando fiz uma comédia, "Shirley Valentine", ensaiei como se fosse sério. Só percebi que era engraçado quando chamei amigos para ver. Mas as peças mais fortes costumam ser as mais interessantes.

Sou muito amiga de Juliana Carneiro da Cunha, com quem trabalhei em "Lágrimas Amargas de Petra von Kant". Juliana integra o Théâtre du Soleil, dirigido por Ariane Mnouchkine. Eu participei de um workshop com máscara balinesa dado pela Ariane. É muito difícil. Eu não consegui.

Gostaria de fazer "O Jardim das Cerejeiras", mais Shakespeare e também textos contemporâneos. Matheus (Nachtergaele) quer montar comigo "Longa Jornada Noite Adentro", que a Cleyde Yáconis fez lindamente. Também nunca fiz Nelson Rodrigues e Plínio Marcos. Zé Celso até me chamou para fazer "Senhora dos Afogados".

Fiz muito pouco cinema. Houve a época das pornochanchadas horrorosas. Cheguei a participar de uma sem saber: "Lua de Mel e Amendoim". Às vezes, passa no Canal Brasil. Mas tínhamos também Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos. Com Julio Bressane fiz "Matou a Família e foi ao Cinema", um clássico, estranhíssimo mas bacana. Recentemente, participei, em pequenos papéis, de "Madame Satã" e "Árido Movie".

Tenho pena de não ter podido experimentar mais. Antigamente, quem fazia teatro não era chamado para cinema. Diziam que a tendência era ficar teatral no cinema. Na TV, os diretores também falavam "joga fora o texto". Hoje em dia, acho que os veículos já não estão tão distantes. Emendei "Medéia" na novela "Senhora do Destino" e foi ótimo porque estava bem exercitada.

Aprendi com Amir que quanto melhor você faz uma personagem, quanto mais se entrega, melhor sai do teatro porque desentope todos os canais. Se você faz de verdade, a personagem fica no palco. Antes de mergulhar em Medéia, pensei: "como vou interpretar uma mãe que mata os próprios filhos?" Mas não precisa. Percebi que se fosse capaz de passar por todos os sentimentos contando a história, o matar os filhos já estaria pronto quando chegasse o momento.

Fiz "Antígona" no começo da minha carreira e ficava no camarim me batendo para entrar em cena no clima. Aí Isabel Ribeiro precisou sair da peça e eu, que fazia Ismênia, assumi o papel de Antígona. No ensaio, tudo é permitido. Mas, justamente porque temos a memória do ensaio, não precisamos nos bater antes de entrar em cena. Com Bia Lessa, fazíamos exercícios de simulação de dor física. E essa dor acaba reverberando, como uma dor interior.

Dependo muito do diretor. Antes diziam que eu era uma atriz emotiva que fazia, posteriormente, a passagem para o racional. Um outro diretor me disse o contrário. Quando fui fazer "As Três Irmãs", Bia Lessa dividiu todo o texto e pediu para fazermos cenas que trouxessem um elemento surpresa. No final deste processo, a peça estava pronta. Já Gabriel Vilella tinha um outro jeito peculiar de dirigir em "Mary Stuart". Eu me entrego ao diretor.

É importante fazer boas peças, escolher bons textos, levar o trabalho para todo o Brasil. Não ficar só no conhecido, pensando: "esta peça é ótima porque vai dar dinheiro, só tem dois atores". A cada escolha que você faz, está renascendo.

Comecei a produzir em 1985. Vinha fazendo ótimas peças, até que assisti uma na Alemanha: "O Grande Pequeno", de Botho Strauss. Era tudo o que eu queria dizer. Mostrei para três ou quatro pessoas mais velhas que queriam produzir, mas acharam muito alemão. E eu pensei: "e os moradores do minhocão, e as mulheres sozinhas naquelas janelinhas?" Quero falar sobre isso. Decidi produzir. Chamei Celso Nunes para dirigir, um produtor executivo, consegui um patrocínio na Petrobras e apresentei no Teatro BNH. Contratei todo o elenco e foi uma experiência muito boa. Se você não tem um grupo, pode formar um.

É uma dor no último dia de apresentação, quando você está se despedindo do texto. Lembro bastante de "O Grande Pequeno".

Procuro escolher um texto bacana, recusar o que não acho legal. Escolha feita, passo a ler tudo sobre aquele autor. Se vou fazer Medéia, por exemplo, já sei de cara que é uma mulher com tais e tais características, rejeitada, etc. Levo tudo isto mas também zero.

Fazer uma personagem é um mistério. Você pode interpretar de mil maneiras. Eu faço do jeito que entendo, com a minha experiência de vida.

Psicologia pode ajudar o ator porque lá você estuda o funcionamento das outras pessoas. Não falo nem por mim, que interrompi o curso no segundo ano. Também acho bom o ator fazer análise. E sociologia também porque somos seres políticos.

Hoje em dia nós somos heróis. Estreei no auge da ditadura. Era a época do Comando de Caça aos Comunistas (CCC), das passeatas, de Edson Luís. Mas, por incrível que pareça, tínhamos gana de trabalhar. Isso é algo que não podemos perder. O teatro é um veículo de colocação do ser humano.

Quando eu vejo a cara de um certo público, penso: "eles só querem ver determinado tipo de peça". É um toma lá, dá cá, que está difícil. Às vezes, o ator fala: "ah, aquele público chato de sábado". Eu sei que é chato ver a cara do público de teatro de shopping. Então, procure outro lugar. Não podemos ser engolidos pela mesmice, pelo teatro que não quer dizer nada. As pessoas mais sensíveis vão procurar o teatro e ele as acolhe.

Não sei o que é talento. Acho que você nasce com ele. Mas conheço atrizes que não eram talentosas, batalharam e conseguiram se impor. Canastrão não tem jeito. Mas às vezes você erra no diagnóstico porque a pessoa pode ser tímida, estar se escondendo.

Não acho que qualquer pessoa pode ser ator. Banaliza a nossa profissão. Me parece que é um resquício de quando os atores eram meio bobos da corte. E você não vai ao dentista e pede a consulta de graça. Agora, o ator recebe pedidos deste tipo da pessoa que conheceu no dia anterior.

Casting é burrice. Só chamam a pessoa para fazer um tipo de papel. Um absurdo. José Dumont é um ator maravilhoso. Mas é convidado para interpretar os mesmos tipos.

Falta dramaturgia brasileira, autores nossos. Escreveram "Vau da Sarapalha" lá na Paraíba e foi maravilhoso. O Brasil é riquíssimo. Há grupos no Norte que se não conseguem vir para o Rio estão ferrados. Então, seria importante um intercâmbio, mas também garantir a sobrevivência deles por lá. Shakespeare e Tchekhov são maravilhosos, mas os brasileiros também - afinal, são a nossa identidade, o nosso DNA. E não faço Shakespeare como se estivesse em Londres. Por isso, o Amir é maravilhoso.

Há também o problema educacional. Geralmente, teatro não é dado no colégio. Seria possibilitar às pessoas gostar de teatro desde pequeno.

No Grande Teatro, atores como Fernanda Montenegro, Ítalo Rossi e Sergio Britto fizeram muitas peças da dramaturgia universal. Era teatro na televisão. As pessoas adoravam. Acredito realmente que muita gente gosta de teatro. Mas perderam o costume.

Eu não entendo um programa como "Big Brother". É horrível. Parece, inclusive, que os reality shows estão decaindo no mundo inteiro. Só no Brasil que permanece. A minissérie "JK" era bacana, mas era exibida muito tarde por causa desse "Big Brother".

No dia seguinte em que a novela de que você está participando termina, perguntam: "você não vai mais trabalhar não?". Quando fica mais velha, a pergunta é pior: "já se aposentou?"

Não dá para negar o alcance da televisão. É um veículo onde você está exercendo a sua profissão. Há novelas boas e ruins. Dias Gomes era ótimo. Também gosto de Braulio Pedroso e Aguinado Silva. Mas vocês não devem pensar em televisão agora.

Vocês, atores jovens, devem se juntar no começo da carreira. Escolher uma peça de que gostem. Se não tem dinheiro, de que maneira pode ser feito? O grupo que apresentou "Hysteria" veio ao Rio sem patrocínio. Não dá para esperar pelas condições ideais.

Nunca fiz teatro infantil. Vejo como uma responsabilidade enorme.
Já me convidaram duas vezes para assumir a função de diretora, mas não tive coragem.

2 comentários:

David disse...

Adoro a Renata Sorrah. Inolvidable Nazaré.
David Escobar

Iracy Perry Atriz disse...

Nossa que entrevista maravilhosa!!!Acompanho o trabalho dessa grande atriz e foi maravilhoso ler tudo o que ela falou sobre teatro. Nota 1000 para Renata Sorrah e para você que fez esse excelente trabalho em publicar essa entrevista.